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Editorial

O drama do explicador
a 2010-02-20 por vch

Explicar jogos é praticamente só desvantagens:

Começa logo por ler as regras:
  - alguns livros têm uma estrutura demasiado desorganizada, o que implica que estaremos a receber informação sem saber onde se vai aplicar: quando lermos a cola para juntar todos os componentes, teremos de revê-los novamente.
  - outros livros têm uma estrutura demasiado fiel à ordem das fases de turno, o que significa que podem estar a falar de coisas que apenas vão ser explicadas nas últimas páginas do livro.
  - teremos de ler pelo menos duas vezes o livro de regras, o que pode ser bastante aborrecido e bastante frustante quando percebemos que ainda teremos de o ler novamente (ex: li 4 vezes o do Die Macher).
  - o primeiro jogo vai ser muito difícil, porque vão fazer-nos perguntas às quais não sabemos responder imediatamente, por isso toca de folhear repetidamente (e depressa para não quebrar o ritmo de jogo) o livro de regras. Normalmente o primeiro jogo vai demorar mais de 30% do tempo normal, o que pode desvirtuar a experiência, já que demora mais tempo do que é desejável.
  - teremos de mastigar as regras, para pensar na melhor forma de as apresentar, sem nunca o termos jogado, e às vezes nem teremos o tema para nos ajudar a fazer sentido.


Depois passa por levar o jogo e (tentar) arranjar os jogadores:
  - começa logo pela pergunta inevitável: "Quanto tempo demora?". Se a nossa resposta for demasiada alta, podemos estar a afugentar potenciais jogadores (para tentarmos chegar ao sweet spot). Se a resposta for demasiada baixa, pode correr muito muito mal quando um jogador ficar traumatizado com o tempo que demora, e irá ficando cada vez mais mal disposto até o jogo acabar.
  - é mais dificil "vender" o jogo, quando nós próprios não sabemos qual vai ser a sensação de o jogar: as regras dão umas luzes, mas só depois da primeira vez é que realmente saberemos. O tema ajuda (ou desajuda), mas a maior parte das vezes será irrelevante (pelo menos nos eurogames).


Depois o explicar das regras:
  - inevitavelmente iremos apanhar um jogador que está sempre distraído (às vezes sou um deles), aquele que está sempre a conversar com o do lado (ou com a mesa ao lado) ou que fica a fazer pirâmides com os componentes. Normalmente será ele o Judas que dirá a meio do jogo que não dissemos uma regra.
  - também existe o jogador que tenta adivinhar as regras, ou às vezes faz perguntas mais à frente, antes do tempo, quebrando o ritmo e a nossa organização mental.
  - é horrivel quando depois de explicar as regras de um jogo longo, e quando estamos mesmo mesmo a começar, aparece outro jogador: poderemos não ter vontade de estar mais meia hora a repetir as regras, e os outros jogadores não terem paciência para ouvir outra vez. E quando a mesa já está cheia, e para ele não ficar parado teremos de perder jogadores, ou pior ainda, mudar completamente de jogo: um mal necessário, mas ainda assim um mal.


E depois jogá-lo:
  - raramente, mesmo quando já o jogámos, nos lembramos de todas as regras durante a explicação. E acreditem: é mesmo coincidência quando me lembro das regras na altura em que me dão jeito. Simplesmente foi o trigger para me lembrar dela.
  - como às vezes somos o único que o sabe jogar, seremos o alvo preferencial, mesmo estando em último lugar.
  - quando repetimos uma regra (ou lembramo-nos dela) temos de o ouvir o cliché: "Se eu soubesse tinha jogado de uma maneira COMPLETAMENTE diferente".


E depois o fim do jogo:
  - se ganhamos, tiram-nos o crédito porque fomos nós que explicámos as regras. Estas acusações são feitas quase sempre por jogadores igualmente experientes. Se o jogo for um pesado, mostra as virtudes do jogo (recompensando a experiência prévia do jogador) mas as acusações ficam feitas.
  - se ficamos em último, ainda por cima somos gozados à força toda.
  - é uma dor quando um jogador, nem sequer faz um encolher de ombros, e diz veemente que nunca mais vai repetir aquele jogo. Foi uma recomendação nossa!
  - é nesta altura que verificamos que as expectativas do tempo sairam furadas!


Só desvantagens? Quase. Duas coisas valem a pena:
  - quando gostamos do jogo, e principalmente pelo menos um jogador gosta: sinto-me como se tivesse criado o jogo com as minhas próprias mãos.
  - todas as desvantagens anteriores, pois as bocas subsequentes fazem parte da interacção social.

E assim um pequeno paragrafo David compensa largamente todos os anteriores Golias.


abruk disse:

Estava a ler e a ver-te no Long Shot!

20 Fevereiro 2010 - 00:57

Tereso disse:

Super thumb! Hoje passei pela experiencia do Macao. O livro de regras à la Rio Grande ajudou, mas as 120 cartas diferentes não. Não fazia a mínima ideia do que ia sair. Ganhei e choramingaram. Um elemento esqueceu uma regra importante, eu também não reparei e íamos mandando o jogo abaixo ao fim de uma hora. Esqueci-me de regras durante a explicação e fui constantemente bombardeado com perguntas para as quais não tinha resposta. Para terminar, interpretei mal uma regra, um dos jogadores descobriu, e a partir daí perdi toda a credibilidade...

No fim das contas, valeu a pena ;)

20 Fevereiro 2010 - 02:20

haroldun disse:

Tinha que citar esta caro Vasco....lol:
"- como às vezes somos o único que o sabe jogar, seremos o alvo preferencial, mesmo estando em último lugar."
Buuuáaahhhh, buáaahhhhhh.... Meta game ----> target:Vasco!
p.s. desculpa-me!...hihi!

20 Fevereiro 2010 - 05:01

dugy disse:

É um trabalho duro, nem sempre devidamente reconhecido, mas que alguém tem de o fazer.
Eu gosto mesmo de fazer este papel. Não tenho problemas de consciência por me ter escapado uma regra, porque, humildade à parte, normalmente não escapa! O problema é que as minhas "lições" costumam demorar uma eternidade...
Um artigo bestial. Esse David é um porreiraço. E o Vasco também.

20 Fevereiro 2010 - 10:27

Rui Conde disse:

Quando explico um jogo, normalmente sigo um Player Aid ou em alguns jogos da Rio Grande, sigo a coluna resumo q está em cada página, dessa forma, normalmente n me escapa nada de importante.
Normalmente, as Regras são explicadas, há é sp um mais desatento q n as vai ouvir.
No explicar Regras, o q mais me incomoda é mm haver 1 ou 2 jogadores q ainda a frase só tem 3 palavras e já estão a interromper c perguntas...

20 Fevereiro 2010 - 11:37

BrainStorm disse:

Para quem não conhece o Vasco... aqui fica o retrato perfeito.

Passa o jogo (crónica) inteiro a chorar e no final ganha... pronto no jogo raramente ganha, mas que chora chora.

@Rui Conde: Eu sou desse que faz imediatamente as perguntas :P Acho que o faço mesmo só para chatear quem está a explicar. É mais forte que eu :D

20 Fevereiro 2010 - 11:52

Hélio disse:

Ontem foi desses jogos raros em que ele chorou e ganhou. Mas também o jogo era praticamente só sorte: Dice Town.

Gosto muito de explicar jogos, as desvantagens não me atemorizam por muito Golias que possam ser. E é como ele diz, quando corre bem e as pessoas gostam do jogo, ficamos quentinhos por dentro...

Fica aqui o meu incentivo a que o Vasco continue a trazer-nos estes bons artigos. É que ele tem a mania que não sabe escrever bem. Deve ser mais um dos típicos choros =)

20 Fevereiro 2010 - 12:21

Rui Conde disse:

Eu quero é Videos do Vasco, aquele Coreano, faz c q o Vasco poupe na saliva,ao mm tempo, o coreano fica disponivel para todo o sempre e trabalha a qq hora.

20 Fevereiro 2010 - 13:31

bazik disse:

Excelente artigo, revi-me completamente no artigo uma vez que sou eu que explico TODOS os jogos que jogo ao meu grupo. E realmente recompensador quando alguem diz que o jogo é excelente, ou que querem joga-lo mais vezes ou entao mesmo o nosso entusiasmo contagia-los.

Espero que ler este (e outros comentarios positivos) te faça sentir o mesmo, é merecido.

20 Fevereiro 2010 - 13:57

Asur disse:

Eu sou daqueles que se fartam de explicar jogos, explica rapidamente e (relativamente) bem, mas que é certinho esquecer-se de uma regra.

Se ganho, foi porque conhecia o jogo, se perco, é porque sou lorpa e "nem assim".

É a vida. :)

22 Fevereiro 2010 - 11:36

Zekka disse:

Belo artigo Vasco! Um bocado chorão mas bom... :D

E para ficares contente, fica sabendo que és muito bom explicador! Mesmo em condições adversas ;)!!


23 Fevereiro 2010 - 11:26

flip disse:

Pois é Vasco, como te disse no mensal...para mim o pior é quando todos fazem equipa contra mim, só porque sou eu que estou a ensinar...E quando me dizem para ir explicando durante um turno e a meio vem o famoso..."mas tu não tinhas dito isso!!!". Vou desistir desse método (que eu já não concordava muito)...Enfim...resta-me a satisfação pessoal de dar a conhecer, independentemente se gostaram ou não, do jogo em causa.

23 Fevereiro 2010 - 17:38



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