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Jogalidades

Aparqa
a 2010-03-10 por abruk

Fui convidado para participar numa tertúlia de experimentação criativa onde a dinâmica passava por entrelaçar 4 realidades mais ou menos distintas num único funil... relações que nunca se pensaram encontrar entre elas, dinamizada pelo meu amigo BitOcas e suas gentes, e o seu magnífico projecto de dinamização cultural em Águeda - AparqA.

Eu fui falar sobre a experiência do Jigajoga - o encontro mensal de jogos de tabuleiro em Aveiro - e dar algumas achegas sobre o mundo dos jogos de tabuleiro e a sua importância.

Outro tema foi a produção de teatro experimental, onde a urgência trazida pelo sonoplasta da companhia, João Martins, era a premência criativa de uma paisagem acústica para uma peça teatral construída em torno de uma mesa em que o público se mistura com os actores.

O terceiro tema trazido à tertúlia foi a criação de um aluno de mestrado da Universidade de Aveiro - o Theram US. Basicamente, o Theram US é um “instrumento” musical electrónico que usa sensores de movimento para emitir várias escalas de ultras sons, aliadas a variações de cor.

Havia ainda uma outra provocação no meio destas 3 realidades aparentemente distintas... uma tal coisa de lulas artísticas... mas sobre isso não me alongarei muito mais, pois nem sequer sei como o fazer!

A experiência foi muito interessante, mesmo sendo aparentemente caótica, porque se conseguiu encontrar pontes entre as diferentes temáticas, e pontes que eu nunca tinha atravessado.

O jogo e a curiosa distinção semântica entre o tocar e o jogar, que usamos na língua portuguesa, para diferenciar o que é tocar um instrumento musical e jogar um jogo, foi a que mais me surpreendeu e interessou. Realmente, em português diferenciamos o tocar do jogar quando nos referimos à "performance" musical, enquanto noutros idiomas essa distinção não existe (por exemplo Play the guitar, jouer du piano...).

Com o claro propósito de evitar conclusões, lançou-se na noite de conversa a evidência do "preconceito" cultural que o jogo tem na nossa cultura, no percurso histórico da sociedade portuguesa, nomeadamente na conotação que se amarra ao jogo ao longo de décadas, de permeio com uma ditadura que adjectivou sempre o jogo como um caminho de má vida e de vício. Os maus caminhos e uma panóplia de estereótipos proibitivos e, em alguns casos, diminutivos da experiência do lúdico, são uma nota comum, que tira ritmo e cor às inúmeras vantagens que o jogo encerra, muito para lá dos seus prejuízos.

A associação que se faz entre o acto do jogar como uma actividade exclusiva da criança, foi outra das perspectivas trazida à conversa. Essa redutora compartimentação do jogo numa esfera apenas infantil, é outro enviesamento de quem não conhece a experiência dos jogos de tabuleiro, e que muito contribui para a relutância de uma grande franja de pessoas em participar em eventos, como o Jigajoga e o similares.

Há muito a fazer… primeiro talvez pudéssemos difundir mais o jogo junto dos mais novos, pois serão eles os adultos esclarecidos e desprendidos de tabus em relação ao jogo. Por isso, proponho uma partida de Das magische Labyrinth (vencedor do Kinderspiel des Jahres de 2009)e de Nicht zu fassen (vencedor do As D’Or deste ano) em família, célula fundamental da sociedade e ninho da aprendizagem do saber ser.


Tereso disse:

Excelente artigo! É curioso, e corrijam-me se estiver enganado, mas nós boardgamers temos alguma relutância em jogar os "nossos" jogos com miúdos. Talvez ainda tenhamos medo de sermos confundidos... Passa-se o mesmo convosco?

10 Março 2010 - 00:21

espanhol disse:

Eu acho que já joguei contigo, n já? :)

10 Março 2010 - 03:07

abruk disse:

Curiosamente jogo com miúdos com alguma frequência graças ao ATL Tour (http://jogoeu.wordpress.com/2009/07/27/oficina-de-jogos_atl-tour/) e acho que não me confundem... mas que sou um bocado associado ao "Carlos e os seus jogos", disso já não me livro, seja lá isso o que for!
Jogar com a minha filhota também vai acontecendo amiúde, é o meu legado! :D

10 Março 2010 - 07:44

Tereso disse:

@Espanhol - Hoje no CCA vemos quem é o miúdo :D

10 Março 2010 - 10:02

Arrebimbomalho disse:

Bom artigo Abruk, deixaste-me curioso com as lulas, lol
Eu tento espalhar o gosto por "tudo o que mexe", jogo com miúdos (meus filhos e filhos de outros), jovens, e adultos mais "maduros", e curiosamente tb sou visto como o "Marco e os seus jogos".
No meu caso, acho que o alvo mais difícil de atingir é o sector dos adolescentes, provavelmente por não quererem ser confundidos com crianças :-)
@Tereso e Espanhol - portem-se bem garotos, e não se magoem!

10 Março 2010 - 11:20

Rui Conde disse:

Acho q os adultos só n jogam jogos de tabuleiro pq durante mtos anos, n tiveram nada próprio para a sua idade. Tenho amigos c filhos(as) q jogam, no seio da familia c as crianças e a escolha é o inevitável Monopólio pq é o q conhecem, na medida q conhecem outras coisas, alguns, apresentam aos adultos q são visitas de suas casas. É um processo lento mas q eu já assisti algumas vezes nomeadamente c o Catan.
Concordo c o Arrebimbomalho, são os Teens q mais temem os jogos de tabuleiro por acharem q isso lhes tira "estilo e boa onda", o meu sobrinho (14 anos), é um «convertido» e tem alguma dificuldade em jogar c os amigos dele, acabando por jogar cmgo e amigos meus(em noites q n perturbe a sua vida de estudante).

10 Março 2010 - 11:39

tmgd disse:

Eu também ando sempre com o saco de jogos atrás e o pessoal comenta logo... mas eu não me importo com isso, se der para jogar excelente, se não der, tudo bem na mesma. O que é certo é que, quando apresento jogos a quem não está habituado a jogar, no final, ficam geralmente satisfeitos e com vontade de repetir a experiência.

10 Março 2010 - 13:25

vch disse:

Artigo muito interessante.

10 Março 2010 - 14:02

Hélio disse:

É com as crianças que a escolha de jogos se torna absolutamente fundamental. um jogo demasiado facil e eles depressa se fartam, um jogo demasiado dificil e depressa perdem o interesse. acho que receamos jogar c miudos por isto mesmo, eh dificil acertar com a receita certa.


10 Março 2010 - 17:42

BitOcas disse:

Parabéns pelo artigo. É daquelas coisas que há muito queremos falar e ficamos contentes por alguém tomar a iniciativa. Fico contente também por teres estado na conversa e ela ter servido os propósitos de quem lá esteve.

E, como uma conversa não se fecha nunca, cá vai a minha opinião sobre o seguimento da mesma nesta rúbrica.

Eu costumo jogar muito com os mais novos, até porque uma das minhas actividades é a criação e dinamização de eventos lúdicos. Mas acho que se nos disponibilizamos para jogar com os miúdos eles estão sempre prontos. Tudo se torna mais fácil se formos ao seu encontro e jogarmos com eles os seus próprios jogos, fazendo uma aproximação aos seus níveis de compreensão e de ludicidade (Ajuda à navegação: o que é muito difícil é cansativo e o que é muito fácil é aborrecido). O que se passa normalmente é que os adultos tem dificuldade em aceitar a criança que está em cada um (homo ludos) e deixam de brincar ao faz de conta como se fosse um desvio à responsabilidade e à seriedade (como um pecado).

Não esquecer que os miúdos são óptimos mestres-jogo no sentido em que estão constantemente a propor momentos lúdicos e, imaginação não lhes falta, mas a nossa tendência(adquirida culturalmente) é se tomar essas propostas como inferiores só porque nós entendemos mais alem do que o raciocínio limitado da criança. Mas se por outro lado aceitarmos as propostas que nos fazem logo temos a oportunidade de gerar um contexto lúdico de dois mestres jogo a descobrirem e definirem as regras para a actividade a explorar. Quero dizer que se não aceitamos essa fase de ainda indefinição do jogo não estaremos aptos a jogar de forma inter-geracional e que se por outro lado passamos por essa fase que chamo de fábrica de jogos, cimentamos a confiança mútua e a aceitação por parte da criança (e do adulto também) das regras estáveis de jogos concretos ou de situações do dia a dia em que as regras são fundamentais. Resumidamente aceitar regras ainda por definir ajuda a aceitar regras já definidas. Se só apresentamos os jogos e situações como definidas não damos espaço para o caminho para lá chegar tão importante. Esse é que é para mim o jogo a jogar.


11 Março 2010 - 11:39



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